Se tivéssemos um governo nacionalista no caso Ford

Por João Bulhões

1) Criaríamos uma empresa chamada Autobrás, capitalizando-a via BNDES e comprando todo o capital fixo da Ford (fábricas e maquinário) a preço de espólio empresarial.

2) Formaríamos uma joint-venture com participação minoritária de capital privado (como nos modelos chinês e vietnamita) com a finalidade de obter tecnologia de ponta, expertise humana e dinâmica gerencial. Vale até capital estrangeiro.

3) Organizaríamos a estrutura societária de modo a permitir participação expressiva aos funcionários nas ações da empresa, sem deixar de lado a competitividade. A estrutura societária da Huawei pode ser uma inspiração.

4) Determinaríamos que 25% de todas as novas aquisições de automóveis por parte de órgãos públicos vinculados à União deveriam ser feitas junto à Autobrás. O objetivo seria gerar demanda de escala para a fase inicial das operações. Determinaria ainda que estados e municípios que necessitarem de ajuda financeira federal só serão agraciados, a partir de agora, se também adotassem a medida.

5) Prepararíamos nossa base para enfrentar uma violenta campanha midiática movida por Globo, Folha/UOL, Veja etc., que iriam difamar a iniciativa como se não houvesse amanhã.

6) Deixaríamos bem claro ao Judiciário, em especial ao STF, que qualquer invencionice jurídica que visasse sabotar a medida seria confrontada por meios proporcionais e não necessariamente convencionais.

7) Como a Ford está deixando o país de uma vez, aproveitaríamos para convidar a Fundação Ford a tomar o mesmo rumo.

CAMAÇARI SERÁ ALVO DE UMA ARMA NUCLEAR

Camaçari é um município baiano de 300 mil habitantes.Com o fechamento da fábrica da Ford, o prefeito estima que 12 mil pessoas perderão seus empregos imediatamente. Trata-se de funcionários diretos da montadora ou de fornecedoras e prestadoras de serviço.

Mas há ainda o impacto nos empregos de forma indireta – isto é, em setores cuja sustentabilidade depende intrinsicamente da Ford. Falamos aí de pizzarias, escolas particulares, academias de ginástica, autoescolas, mercadinhos de bairro etc.

Nesse caso, a estimativa é que, no total, SESSENTA MIL EMPREGOS desaparecerão gradualmente com a saída da multinacional americana. Lembrando: em uma cidade de 300 mil habitantes.

E quais os efeitos de um desemprego dessa magnitude no médio prazo? Aumento da pobreza, da criminalidade, das taxas de depressão, dos índices de suicídio, dos casos de violência doméstica, da prostituição infantil, da migração em massa, da favelização e de todas as demais mazelas sociais que já conhecemos muito bem.

Como desgraça pouca é bobagem, há que se considerar ainda o derretimento iminente da arrecadação do município, estimado pela prefeitura em CENTO E TRINTA MILHÕES DE REAIS nos próximos dois anos. Uma cifra, vale lembrar, que leva em conta só os tributos pagos pela Ford e não considera a perda de arrecadação que virá com o colapso da atividade econômica do município como um todo.

Derretimento da arrecadação, como bem sabemos, implica em precarização de creches, postos de saúde, oferta de medicamentos, manutenção de vias e mais uma infinidade de serviços públicos dos quais toda a população usufrui.

Resumo da ópera: é como se Camaçari estivesse prestes a ser alvo de uma arma nuclear de uso tático, que ceifaria não milhares de vidas, mas sim seu tecido social.No léxico empresarial-capitalista, todas as mazelas citadas anteriormente são concebidas como “externalidades”, cujo significado pode ser definido como os custos – sejam eles sociais ou ambientais – advindos de decisões gerenciais que são considerados EXTERNOS à contabilidade que “realmente importa”: receita financeira das vendas vs custos financeiros da produção.

Quando os executivos da Ford discutiam a manutenção ou não das operações no Brasil, nenhuma dessas penúrias apareciam em suas planilhas de Excel. O raciocínio foi basicamente “se ficarmos, o retorno é X; se sairmos, o retorno é Y. Como Y > X, vamos sair”.

Se pararmos para pensar bem, trata-se de uma lógica tão fria, burocrática e desumana quanto a de um operador de trem em Auschwitz.E é justamente aí que reside uma das grandes contradições do capitalismo liberal: o fato de as externalidades jamais serem consideradas na orientação econômica das sociedades.

Não há sistema que suporte, de maneira incólume, esse tipo de sociabilidade. Uma hora a conta vai chegar

*João Bulhões é são paulino, educador popular e nacionalista. Professor do curso online “Como criar e coordenar um cursinho popular”.

Artigos Relacionados

O mito da unidade da resistência ucraniana

Durante a cobertura do conflito que ocorre no presente momento no leste europeu, somos levados a acreditar que existe apenas um pensamento na Ucrânia: a defesa de seu governo. Contudo, quando observada de forma crítica, tal narrativa não parece se sustentar. Exatamente nesse sentido, A coisa pública brasileira, no intuito de esclarecer sobre o que ocorre na Ucrânia neste presente momento, publica o presente artigo, do referido autor para que brasileiros possam ter informações relevantes que nos vem sendo negadas, devido ao intenso bloqueio midiático.

A nova política externa da Rússia, a Doutrina Putin

Parece que a Rússia entrou em uma nova era de sua política externa – uma ‘destruição construtiva’, digamos, do modelo anterior de relações com o Ocidente. Partes dessa nova maneira de pensar foram vistas nos últimos 15 anos – começando com o famoso discurso de Vladimir Putin em Munique em 2007 – mas muito está se tornando claro apenas agora. Ao mesmo tempo, os esforços medíocres de integração ao sistema ocidental, mantendo uma atitude obstinadamente defensiva, continuam sendo a tendência geral na política e na retórica da Rússia.

Respostas

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *