Como o marxismo indigenista venceu o golpe na Bolívia

Uma entrevista com Álvaro Garcia Linera para Jacobin Brasil

O ex-guerrilheiro, professor e militante Alvaro Garcia Linera, que serviu como vice-presidente nos governos de Evo Morales, conversou com a Jacobin sobre os desafios da conjuntura mundial, a situação de seu país após a vitória socialista sobre golpe de 2019, a ascensão do neofascismo em meio a crise e como o socialismo pode reorganizar a política no Sul Global.

Entrevista por Hugo Albuquerque, Marianna B. Deus Deu, James Hermínio Porto e Alexandre Vasilenskas

Alvaro Marcelo Garcia Linera é um marxista no sentido mais preciso do termo: um socialista que não aceita a divisão do mundo entre teoria e prática. Ao mesmo tempo, ele é pensador, escritor, ideólogo, guerrilheiro, militante partidário que serviu como vice-presidente da Bolívia por três mandatos consecutivos, sempre acompanhando Evo Morales, primeiro presidente indígena de seu país.

Rigoroso sem ser dogmático, inovador sem deixar de ser radical, Garcia Linera é alguém que pode discursar sobre questões complexas da sociologia, antropologia ou economia e, com a mesma desenvoltura, partir para a resistência armada nas selvas e cordilheiras bolivianas — como, aliás, ele já experimentou ao participar do Exército Revolucionário Tupac Katari, entre os fins dos anos 1980 e meados dos anos 1990.

Como militante socialista, Garcia Linera é um dos principais nomes do Movimento ao Socialismo — Instrumento Político de Soberania dos Povos (MAS), organização que ajudou a fundar com indígenas, campesinos, operários, sindicalistas, ex-guerrilheiros e intelectuais nos turbulentos anos 1990 para resistir ao cerco do neoliberalismo na Bolívia. 

Depois de anos de hegemonia na Bolívia, quando muitos analistas já davam como certo seu desgaste e derrota, o MAS conseguiu reverter o golpe de Estado civil-militar de 2019, neutralizando o regime golpista e o forçando a chamar novas eleições. 

Em 2020, os socialistas voltaram ao poder com uma esmagadora votação. Por essa e tantas outras razões, é na Bolívia, tantas vezes desprezada, que mora uma das organizações socialistas mais sofisticadas do continente com uma rica história de luta anti-imperialista.

Testemunha e um dos protagonistas dessas lutas, Garcia Linera tem muito a nos contar nesta entrevista concedida à Jacobin Brasil e ao programa Desaforo de São Paulo. E aqui ele aborda questões que perpassam pelo seu trajeto biográfico: a construção do MAS, o que o marxismo tem a dizer sobre as identidades, a relação boliviano-brasileira, a influência de Bolsonaro sobre o golpe boliviano de 2019, o governo Biden, o que significa a China para o futuro da humanidade, a dialética entre proteção da natureza e o desenvolvimento econômico dentre outras questões que não se esquivou de responder.

DSP: Como surgiu seu interesse pelo marxismo e como isso se relaciona com sua formação tão multifacetada, tanto na matemática quanto na sociologia? O que faz um matemático no marxismo?

AL: Sou o filho tardio de uma Bolívia muito radicalizada e, até hoje, me mantenho marxista. Pertenço a uma geração que viveu sua adolescência nos anos 1970, quando estava chegando ao fim o ciclo de governos militares na América Latina e, também, na Bolívia. Não militei em partidos, mas quando ainda estava no colégio, aos 13 ou 14 anos, vivia em um ambiente onde a juventude boliviana se radicalizava.

Eu era o mais novo em casa, e meus irmãos faziam parte de grupos de estudo e pesquisa comuns aos jovens que se organizavam politicamente na época. Eu me agarrei nos livros deles e lá encontrei algo que me apaixonava e, também, me ajudava a entender o que estava acontecendo. Minha mãe tinha formação em filosofia e não se opunha às minhas leituras, que passavam por textos de Marx, de Lenin, de Gramsci, de Althusser. E ela não se opunha dizendo “nunca tenha um olhar fechado”. 

Dessa maneira comecei a me tornar obsessivo por textos marxistas, de maneira autodidata para, assim, ser aceito nesses grupos de estudo. Aos 15 anos, li os três tomos de O Capital nas minhas férias escolares e, evidentemente, não entendi muita coisa. Mas esse esforço de disciplina mental para ler milhares de páginas me ajudaram a encontrar Lenin, Mao, Gramsci e outros. 

Quando eu, finalmente, entrei num desses grupos, percebi que eles tinham pouco interesse pela leitura, desconheciam parte desses livros e tinham mais interesse em debater o ativismo. 

A outra corrente que me influenciou foi a do indianismo, nos termos que ela surgiu na Bolívia nos anos 1970. Entre as dezenas de nações indígenas que existem na Bolívia, duas delas são muito numerosas: os aimarás e os quechuas — e delas surgiu uma intelectualidade muito forte das quais eu me aproximei, também na adolescência, mesmo que grande parte da esquerda as tenha marginalizado. Naquela época, também emergiu um forte movimento indígena e campesino que começou a reivindicar sua identidade própria, o que culmina com o levante de 1979 que me impactou muito. 

Assim, esse setor da classe média tradicional passou a produzir um discurso fascistóide, racializado, uma verdadeira reação aos processos que conduziram à igualdade social. Isso é um tema recorrente em toda a América Latina que passou por processos de inclusão semelhantes. 

As lutas por igualdade geram sublevações daqueles que são igualados, sobretudo pelo viés racial: antes a cor branca da pele era um bem, capaz de produzir por si só reconhecimento e acesso a cargos. Agora, outros fatores passaram a ter valor social. 

Portanto, no episódio do golpe, esse setor perde as eleições novamente, mas consegue influenciar, em um primeiro momento, um motim policial. Os policiais deixam de controlar a segurança pública e pedem a renúncia de Evo. Até ali, havia um processo controlável, inclusive já havíamos vivido um processo semelhante no ano de 2008, quando houve uma tentativa de golpe semelhante — porém a mobilização social que nos sustentava se insurgiu e neutralizou isso. 

Algumas horas antes do Alto Comando pedir a renúncia de Evo, em 10 de novembro de 2019, aviões sobrevoaram e dispararam contra os movimentos sociais que estavam bloqueando as estradas em protesto contra o motim dos policiais junto aos setores médios radicalizados. Aí era o uso da força rompendo com a estrutura constitucional. 

Diante disso, vieram horas dramáticas onde restava a nós resistir aos militares, seus aviões, tanques e armas automáticas ou dar um passo atrás. Resistir a esse levante militar teria significado um banho de sangue, no qual as maiores vítimas teriam sido os mais humildes. Decidimos renunciar para evitar isso. 

A lição que fica para a América Latina é que para as democracias garantirem sua continuidade, elas precisam não apenas incrementar a participação popular. É necessário, também, uma profunda transformação ideológica e cultural nas estruturas militares e policiais do Estado.

Nessas estruturas, ainda vivem núcleos muito conservadores, chegando a ser até fascistas. Eles apenas recuaram na democracia, se camuflando. Então, diante de uma crise qualquer, eles emergem e tentam definir de outra forma a vida política. Portanto, é fundamental uma mudança da doutrina militar e dos valores das instituições armadas do Estado.

Se não fizermos isso, pode haver muita democratização da vida pública, mas sempre haverá o risco de setores minoritários, porém influentes, colocarem fim a essa experiência de liberdade — na Bolívia ou no mundo, pois os setores fascistóides e autoritários estão latentes em toda parte.

DSP: Avançando um pouco mais na questão estratégica, dois pontos: o que é o subimperialismo brasileiro na região? 

AL:

O Brasil é uma potência regional: a maior economia, população e território da América Latina e, por isso, exerce um verdadeiro papel gravitacional sobre seus vizinhos, principalmente de cem anos para cá. Isso não quer dizer que o Brasil seja para Bolívia como os Estados Unidos são para o México, onde há uma dependência quase total. Mas o Brasil tem concretamente, para o bem e para o mal, muita importância para a Bolívia. 

Na história recente da Bolívia, a ditadura militar brasileira teve um peso enorme para a sustentação da ditadura de Hugo Banzer (1971-1978), mas não sobre o golpe e a ditadura de García Meza em 1980, a qual teve um papel maior a ditadura argentina. 

Por outro lado, a presença do Brasil democrático, na figura do governo Lula, teve uma influência oposta, sendo uma das principais forças para neutralizar internacionalmente a tentativa de golpe de 2008

Agora, no contexto do golpe de Estado de 2019, há informações que o próprio embaixador brasileiro participou das reuniões obscuras nas quais golpistas como Carlos Mesa, Samuel Doria Medina e Tuto Quiroga tramaram junto com a hierarquia da Igreja Católica e o embaixador europeu para colocar na presidência, contra a Constituição, Jeanine Áñez. 

Áñez não presidia nem o Senado, nem a Câmara dos Deputados — e era, apenas, uma representante da minoria que foi derrotada nas eleições que tinham ocorrido pouco antes disso. A Embaixada brasileira, portanto, teve uma participação nessa violação constitucional na Bolívia. 

Mas não resta dúvida, também, que essa ação golpista contou com o apoio do então presidente americano Donald Trump, o primeiro líder a cumprimentar Jeanine Áñez — e o senhor Foronda, um notório agente da CIA, que se tornou assessor da presidenta golpista, o que equivale a quase um desembarque dos marines na Bolívia.

Todos eles pensaram que esse processo golpista, restaurador da velha ordem oligárquica iria durar muito tempo. Pensavam que bastava matar, prender ou manter Evo Morales fora da Bolívia durante muito tempo, perseguir os dirigentes do MAS e dos sindicatos, queimando suas sedes, destruir rádios populares, intimidar e massacrar indígenas e operários que se insurgiram.

DSP: Qual o impacto para a Bolívia sobre a saída de Trump e a chegada de Biden ao poder nos Estados Unidos? Sobre esse último ponto, Tony Blinken, o secretário de Estado do governo Biden protestou contra a prisão de Jeanine Áñez na Bolívia, mas se calou sobre a prisão do golpista Arturo Murillo nos Estados Unidos, o que isso significa?

AL: Os Estados tiveram também uma participação direta apoiando esse empreendimento. O ex-ditador boliviano Tuto Quiroga comandava as ações repressivas do regime golpista, enquanto o Departamento de Estado dos Estados Unidos via isso com bons olhos. Foi o momento glorioso da presença americana na Bolívia, depois que tiramos o escritório da CIA de dentro do Palácio Presidencial, expulsamos a DEA, expulsamos o embaixador americano que havia apoiado o golpe de Estado de 2008. Esse golpe de 2019 foi a vingança dos Estados Unidos.

Os golpistas, inclusive, não quiseram reconhecer os resultados das urnas, nas eleições que eles foram obrigados a chamar. Em 18 de outubro de 2020, só tivemos o resultado da contagem rápida com cinco horas de atraso.

A presidência de Biden já teve de enfrentar algo parecido antes mesmo de sua posse, seu próprio golpe de Estado, com a tentativa de tomada do Capitólio pelos manifestantes paramilitares trumpistas. A imagem que fica desse episódio obriga Biden a moderar a política que herdou para a Bolívia e para a América Latina, uma vez que ela poderia desencadear demônios que não estão apenas no Sul Global. Setenta milhões de americanos votaram em Trump, isso não é pouca coisa. O demônio do fascismo está desatado no mundo inteiro. 

O que fez Biden então? Sim, rechaçou a prisão de Áñez, mas por outro lado apoiou, ou deu luz verde, a uma investigação contra Arturo Murillo. Essa operação se deveu à pouca transferência de recursos, alguns milhões de dólares, para bancos americanos vindo da Bolívia. Seria um dinheiro que serviria para comprar gás no Brasil, mas foi pago em um banco americano. Desde então, começou uma investigação silenciosa, mas Biden poderia ter mantido isso em banho-maria, o que não fez. Como resultado Murillo foi preso.  

Biden muda a atitude frente a Bolívia e a América Latina, pois ele é um sintoma de uma transição mundial que começou na América Latina com Chávez, Lula, Kirchner, Correa, Evo Morales. Fomos nós que iniciamos a transição do neoliberalismo ao pós-neoliberalismo. 

Os temas que começamos a debater a dez ou quinze anos atrás, maior presença do Estado, distribuição da riqueza, impostos sobre os ricos, preocupação com a saúde e a educação, aumento dos investimentos estão começando a ser debatidos nos Estados Unidos e na Europa. 

Isso é sintoma de que há um cansaço mundial com o neoliberalismo, que entrou em declínio. Ao não gerar mais expectativas e não produzir horizontes, surge uma pluralidade de alternativas novas, uma divergência de elites e saídas políticas, seja com um New Deal ou um autoritarismo. O consenso de elites que havia até os anos 2000 no mundo acabou. 

É o fracasso do neoliberalismo: não há futuro e saídas previsíveis. Vivemos um momento preliminar, onde o presente parece eterno, pois não há opções para o futuro. E Biden, então, está experimentando ao seu modo o progressismo nos Estados Unidos. Não sabemos se ele conseguirá suas metas, mas isso mostra a perplexidade do mundo diante da ordem neoliberal.

Biden tem problemas. A sociedade americana tem problemas e o mesmo se pode dizer de seu sistema político. E esses problemas se refletem também nessa ambiguidade sobre América Latina. Uma parte segue apoiando saídas autoritárias para nosso continente, mas outra parte busca tolerar novas opções. Bolsonaro foi um intransigente defensor de Trump, mas hoje Trump está às portas de ser preso. O que vai ser o Bolsonaro com Biden? Ou Biden com Bolsonaro? É um momento de muita incerteza planetária que se projeta na América Latina.

DSP: Falamos do Brasil e dos Estados Unidos, mas qual o papel da China nessa nova configuração global?

AL: Eu acho interessante o papel da China, pois está claro que ela está trabalhando sua conversão em grande hegemon global sem pressa, mas também sem pausa — e com uma temporalidade histórica distinta da ocidental. O tempo para os chineses é distinto. Seus anos históricos duram décadas. Estão trabalhando nessa perspectiva e indo bem. Os chineses são os únicos que enxergam o mundo de maneira entusiasmada, enquanto o resto das potências veem o mundo com temor. 

Trump é um exemplo disso, mas também ocorre o mesmo com Merkel que diz “viva ao livre-mercado, mas coloco aqui minhas restrições ao 5G chinês e, ainda, me confronto com os franceses para ter mais vacinas e respiradores”. Uma grosseria, o nacionalismo das vacinas: “primeiro nos vacinamos e só depois disso deixamos que o mundo se vacine”. Essa perspectiva de globalista de ocasião retoma a mesquinhez nacionalista de grande potência. 

Agora, chega Biden e ele mantém o mesmo quando não exporta vacinas para o México ou para a Argentina, para vacinar os seus em detrimento do mundo. 

Os únicos que têm hoje uma visão de mundo são os chineses. Silenciosa, mas possuidora de uma ambição para o mundo. Pode não acontecer nesta década ou na seguinte, mas está claro que a China será um fator cada vez mais de gravitação e hegemonia mundial. Ela ainda precisará desenvolver uma estrutura cultural de porte, que é parte do que faz os Estados Unidos serem o que são. 

Para a América Latina, a China tem demonstrado uma posição diferente da americana. Os Estados Unidos liberam um crédito para os países latino-americanos sempre exigindo algo em troca, talvez uma privatização de refinarias, um congelamento de salários ou corte de verbas para a educação etc. Já a China o faz sem exigir nada em troca, sem se meter no sistema político, na economia, na cultura e nas relações trabalhistas, simplesmente como uma prova de boa vontade para iniciar uma relação comercial de mão dupla. 

Os chineses se tornam parceiros, se associam a empresas que eventualmente compram, combinam como se darão planos de investimento sem que os países latino-americanos se vendam política, econômica ou culturalmente. Frente à mesquinhez dos Estados Unidos, que nos últimos vinte anos retrocede com seus créditos, a China tem sido uma fonte de acesso a recursos para todos os países latino-americanos, seja para os progressistas ou para os conservadores como Chile, Peru, Colômbia ou mesmo para o Brasil de Bolsonaro.

Isso que a China faz é uma expansão molecular, como diria Gramsci: silenciosa, porém consistente em várias áreas da economia. E, é claro, a China está pensando em como criar rotas de expansão de seu comércio e de sua produção industrial, mas também meios para garantir o abastecimento do que lhe falta, sejam alimentos ou matérias-primas para sua produção. 

A China está criando várias rotas da seda por todo mundo para levar e trazer mercadorias, obter matérias-primas e matérias raras, desenvolver tecnologias para se constituir como um novo hegemon planetário. Isso está modificando o cenário das disputas mundiais pelos próximos vinte ou trinta anos. 

Como Biden colocou, o principal adversário dos Estados Unidos é a expansão da China, não o comunismo ou os populistas. E pensa o mesmo Henry Kissinger, que enxerga ser necessário ganhar a batalha da China no campo da expansão molecular sobre a economia mundial.

Não sabemos como será essa batalha. Mas no meio dela estamos todos nós, latino-americanos, e precisamos ter uma visão muito pragmática — em termos da construção de nosso projeto progressista, de construção da igualdade, justiça e desenvolvimento, sabendo buscar aliados onde for possível. 

DSP: Há o surgimento de um novo ator no mundo, um tipo de fascismo combinado com ultraliberalismo e fundamentalismo religioso. Isso é muito bem representado por Bolsonaro, mas também pelo governo golpista na Bolívia. Como você compreende isso?

AL:

O neofascismo ou pós-fascismo planetário que está, também, na América Latina é uma reação autoritária e enfurecida ao colapso cognitivo do horizonte comum. Eu tendo a pensar que os fascismos e os neofascismos — ou pós-fascismos — sempre aparecem em momentos de declínio dos liberalismos econômicos. A Primeira Guerra Mundial já foi um sintoma disso, mas depois nas crises do entreguerras. Hoje, estamos testemunhando um novo declínio, desta vez do chamado neoliberalismo. Esse processo dá lugar a essa reação.

Vivemos um declínio de todo um sentido comum de ver a vida. Foi assim também no começo do século XX. É a perda de um horizonte comum, o que gera o fim da previsibilidade das coisas, da própria capacidade de prever o futuro imaginado. Há um colapso cognitivo, não dos professores ou políticos, mas do próprio cidadão comum que apostou no livre-mercado, na globalização e na meritocracia como um ilusório destino de sua família, de seus filhos e de seus netos. Tudo isso desaba.

Em meio a esse colapso cognitivo surgem os que querem restaurar a velha ordem à força. Na Bolívia, há uma aliança desses reacionários com setores ultraconservadores da Igreja Católica, que nunca nos perdoaram por tornar nosso país em um Estado laico — pois antes da atual Constituição, a Bolívia era um Estado confessional católico. Chegamos ao absurdo de ver religiosos ligados a essa corrente benzendo helicópteros que matavam manifestantes antigolpe nas estradas.

O que sustentou o consenso democrático, durante o auge do neoliberalismo, foi simultaneamente a ausência de projetos alternativos a ele e, por outro lado, a inexistência de uma disputa entre os próprios setores da elite global. Não havia ameaça e as diferenças entre os atores políticos eram pequenas.

Porém, agora que por meio da democracia podem ascender propostas alternativas, os setores mais conservadores passaram a ver ela como um perigo. Agora, o livre-mercado precisa se divorciar da democracia. Os setores que invadiram o Congresso dos Estados Unidos são aqueles que invadiram o Palácio Presidencial da Bolívia. E eles podem fazer, inclusive, coisas piores.

Esse neofascismo é o sintoma de um momento do mundo que pode, ainda, durar anos ou décadas. E só vai mudar quando surgir um novo horizonte que permita às pessoas, novamente, preverem e imaginarem o futuro. Vivemos um tempo suspenso e, nesse meio tempo, surgem essas monstruosidades como diria Antonio Gramsci. 

No caso boliviano, falamos da aliança entre grupos civis e militares com a hierarquia católica. No caso brasileiro, temos as correntes neopentecostais fazendo às vezes do catolicismo de ultradireita. Pois, no fundo, isso tudo é uma reivindicação de restauração de alguma ordem, que os conservadores se utilizam para fazer ser a de um tempo passado, onde indígenas eram explorados pelos patrões, mulheres eram condenadas a tarefas domésticas, operários deveriam ficar calados em seus sindicatos. 

E nós da esquerda estamos falhando em criar uma alternativa crível para que as pessoas, enquanto operários, campesinos ou, indígenas possam encontrar a satisfação de suas expectativas de liberação. O neofascismo é um chamado à esquerda a agir. Temos de construir a certeza em um futuro, pois do contrário as pessoas aceitarão a certeza que lhes for dada por qualquer um, inclusive os neofascistas. As pessoas estão demandando segurança e certeza.

DSP: Como você compreende o papel dos povos indígenas da América do Sul na luta contra o neofascismo?

AL: A maioria dos países do Sul é produto da colonização. Na América Latina, as identidades nacionais indígenas persistiram sob muita luta e sofrimento desses setores. Esse é um fator central para pensar em qualquer transformação social. 

Dentro do marxismo há toda uma corrente que me agrada, e a qual eu reivindico: a discussão pela identidade — seja nacional, campesina, indígena ou comunal. Karl Marx,  nos seus dez últimos anos de vida, passou a se dedicar a estudar o que se passa na China, Rússia, Índia e na América Latina. Ele sabia que havia algo ali, e preferiu estudar isso a terminar os tomos segundo e terceiro de O Capital.

Essa corrente do marxismo nos dá subsídios para entender o que estamos vendo agora — e que o marxismo não conseguiu ver nos anos 1950, 60 ou 70, embora na América Latina nós tenhamos tido um pioneiro nisso como José Carlos Mariátegui, que percebeu que nessas identidades há uma enorme potência de transformação pós-capitalista.

Evidentemente, a luta das identidades indígenas e nacionais precisa estar articulada à luta dos trabalhadores urbanos. Os fatos, principalmente na Bolívia, chegaram a extrapolar a teoria, uma vez que nossa experiência colocou em curto-circuito o programa neoliberal sob bandeiras mobilizadoras potentes encarnadas pelos setores indígenas. 

Sobre a força de mobilização identitária e territorial dos indígenas, se articulou também a questão de que não há somente indígenas campesinos, mas também urbanos que são trabalhadores, artesãos e comerciantes. Assim, por meio da organização de identidade e territorialidade desde o campo, se irradiou as cidades, dentro de uma perspectiva de que há que se articular horizontalmente com setores como os operários tradicionais, setores universitários, as esquerdas radicais.

Isso permitiu que se desse esse grande processo de transformação na Bolívia. Em outros países, certamente o indígena está presente, mesmo que não tanto quanto na Bolívia, Guatemala e Equador, mas não se pode imaginar, mesmo na Argentina, na Colômbia ou no Brasil, uma transformação social pós-neoliberal e pós-capitalista sem esse núcleo.

Creio que o marxismo comunalista de Marx é uma grande vertente para ampliar, aprofundar e transformar a velha leitura marxista na qual as identidades não existem. Esse marxismo de manual não nos interessa, ele tem de ser superado por uma esquerda aberta às identidades que responda à questão, em cada caso concreto, onde estão os humilhados?

Como Marx, quando escreveu sobre a Comuna de Paris e se deparou não com operários das grandes indústrias, mas gente da plebe, artesãos, comerciantes, imigrantes — e Marx chamou o governo deles de governo dos trabalhadores. 

Temos de enfrentar a questão de como o popular não é apenas um conceito, mas um conglomerado construído historicamente de identidades, discursos, formas associativas em que, certamente, o trabalhador assalariado tem um papel decisivo para imaginar um futuro pós-capitalista, mas que se não está vinculado respeitosa e horizontalmente — e às vezes taticamente subordinado a setores campesinos, populares ou de mulheres — não vamos poder imaginar de forma séria a transformação da ordem capitalista vigente.

A grande virtude do progressismo latino-americano, e eu o coloco como um modelo para o mundo, é saber entender essa pluralidade e essa potência popular e plebeia. A classe não se mobiliza pela afirmação de si mesma como tal, mas pelo movimento objetivo de sua luta: a classe operária não se mobilizou na Rússia de 1917 dizendo “somos a classe operária”, mas sim reivindicando “paz, pão e terra”.

A classe real e mobilizada toma caminhos próprios, que nós temos de saber identificar se quisermos fazer política revolucionária, marxista ou comunista de verdade.

DSP: Como abordar a suposta contradição entre o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental?

AL: É uma pergunta das mais complexas para o progressismo. Está claro para o progressismo, a esquerda e os revolucionários, que a temática ambiental é imprescindível, sem a qual também se desenha um projeto alternativo de economia, política e sociedade. 

Isso já está presente em Marx em suas preocupações entre o metabolismo ser humano-natureza. E essa reflexão não surge apenas nos anos finais de Marx, mas já na sua juventude e na sua leitura de Hegel. Como enxergar a relação entre naturalizar o ser humano e humanizar a natureza?

Isso foi quase totalmente esquecido no século XX, graças à preocupação com a produção e a proletarização da força de trabalho — só sendo retomado pelos movimentos alternativos que emergiram nos anos 1980 e por distintas correntes marxistas como o ecossocialismo.

Sem dúvida, está claro que no que diz respeito à temática ambiental, não apenas há correntes progressistas e marxistas, mas há também correntes conservadoras, neoliberais ou, até mesmo, um ecofascismo, que ao seu modo interpreta este fenômeno histórico e esse risco da vida no planeta — e que considera o extermínio e esterilização de mulheres dos países de terceiro mundo, pois o problema seria a quantidade demasiada de pessoas no mundo. 

Uma variante disso implica em dizer que os países do Norte manterão seu modo de produzir, enquanto caberá aos países do Sul serem “os pulmões do mundo”. Isso, apesar de sua lógica fascistóide, é também uma forma de defender a natureza.

A variante centrista aponta que o cerne do problema ambiental está na nossa forma de consumo. Então, modifiquemos a nossa forma de agir em casa, junto à nossa família. É a lógica da Coca-Cola: mude o mundo colocando a garrafa no lixo de coleta seletiva. O ambientalismo baseado nesse olhar se baseia na mudança de hábitos ou na redução do consumo individual. 

Há também empresas que lucram em cima da conservação ambiental, o que torna parte disso um mero negócio. Vide o comércio de bônus de carbono ou os seguros anti-cataclismos ambientais. Ou seja, o ambientalismo é convertido em uma outra forma de acumulação do capital. 

E existe, por fim, o olhar comunista. Dele surgem duas coisas simultâneas: primeiro, não pode haver um ambientalismo efetivo sem um olhar social. Segundo, que é necessário modificar o processo de produção, não de consumo. 

Sem mobilizar trabalhadores, conectar as pautas sociais de salário, emprego e bem-estar à proteção ambiental, é impossível fazer outra coisa senão um ambientalismo de classe média alta.

Igualmente, o núcleo da destruição capitalista do meio-ambiente é o sistema capitalista de produção, não de consumo. Não é possível proteger o meio-ambiente impondo restrições ao povo do Sul, sendo que quem destrói o meio-ambiente são os países do Norte com sua vasta produção e, também, consumo muito além de sua necessidade.

DSP: O que você gostaria de dizer aos jovens militantes de hoje?

AL:

Que estão vivendo um momento extraordinário da história do mundo. Muito complicado, muito conflitivo, mas é este o momento que qualquer revolucionário da história da humanidade gostaria de viver. 

É um momento brilhante para aqueles que são jovens, pois há abertura ao contrário de outros momentos, quando as pessoas estão fechadas e impermeáveis mesmo às ideias mais espetaculares. É agora que se abre a alma da sociedade, o que é contraditório, pois isso está marcado pela incerteza, o desassossego, o descrédito.

Aquilo que estamos vivendo agora é o declínio do atual sistema de dominação. As elites podem reciclar, mas talvez não. Esse “talvez não” depende de nós, os revolucionários, os comunistas, os socialistas, das lutas dos humildes. Assim, esse “talvez não” se materialize em um outro horizonte de vida.

É assim, sobre isso, antes tarde do que nunca, tem que surgir um novo horizonte planetário, que ninguém sabe ainda qual é, mas os jovens têm de construir, oxalá com justiça, igualdade e liberdade. E eu me assumo como um velho militante de base, que tem de ser dirigido e impulsionado por uma nova geração impetuosa que tem de construir esse futuro.

Sobre os autores:

Álvaro García Linera é vice-presidente da Bolívia.

Alexandre Vasilenskas é psicólogo, mestre e doutor em saúde coletiva. Conselheiro do CRP05 e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Hugo Albuquerque é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP, advogado e diretor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia (IHUDD).

James Hermínio Porto da Silva é jurista, mestre e graduado em Direito pela PUC-SP, membro do Instituto Humanidade, direito e democracia. Filiado ao Partido dos Trabalhadores e servidor público do Estado de São Paulo.

Marianna B. Deus Deu é bacharel em Ciências Sociais, mestranda em Desenvolvimento Econômico pela UNICAMP. Pesquisa empresas militares e de segurança privada é militante, engajada em atividades de organização territorial comunitária.

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