Bolsonaro vai mesmo pra batalha de Brasília?

Por Hugo Albuquerque*

Bolsonaro vai testar as armas para ver se consegue ir para sua batalha de Berlim. A queda de Ernesto Araújo e agora a demissão de Azevedo e Silva, indicam isso. Mas ele não está indo para o tudo ou nada, ele está testando para ver se consegue ir para a batalha final.

O grande ponto é que Bolsonaro está sem o STF — e se descobriu dependente dos presidentes da Câmara e do Senado que ele gastou tudo para eleger. Agora, ele abriu pela primeira vez um confronto aberto com o alto comando do Exército.Não é que chegamos aqui porque “Bolsonaro ganhou a ‘guerra cultural’ em 2020” como disse Elio Gaspari. Bolsonaro esteve nas cordas, mas foi salvo pelo gongo (tocado antecipadamente) pela turma que separa isso daí em “ala ideológica” e “ala técnica”.

Os liberais passaram 2020 inteiro divididos em dois projetos: ou tentar domesticar e controlar Bolsonaro ou deixa-lo como zumbi para eleger o candidato de “centro” quem quer que fosse — Maia, Doria ou mesmo FHC e Huck estavam no segundo time, embora separados entre eles.O segundo time apostou numa segunda onda leve para, inclusive, que Bolsonaro fizesse as “reformas” que interessavam à banca, mas eram amplamente impopulares.

Percebam, Kátia Abreu, que foi vice de Ciro, em pessoa, ainda estava tentando chamar Ernesto Araújo ao bom senso, de que ainda que a estupidez de bloquear o 5G chinês fosse válida (não é), esse DEFINITIVAMENTE não seria o momento de colocar isso na mesa.

Kátia tinha razão no que dizia, mas não para quem dizia. Ernesto, vendo que ia cair, entregou Kátia para mostrar para a base um suposto complô “globalista chinês” — quem sabe, poderia se sustentar ou cair bem. Mas o Senado agiu com dureza pela trairagem dele.

Ernesto violou uma regra de ouro da política, que é entregar interlocutores — que ele, por sinal, nem deveria ter. Mas isso entrega a maneira limítrofe como o “Centrão” ainda encara uma situação grave em nome de interesses econômicos de curto prazo.

Se Bolsonaro se beneficiou do paradoxo de entregar arrochos que só ele poderia fazer, por outro lado, seu projeto é indissociável de uma geopolítica alheia até mesmo ao interesse da oligarquia — isso, num cenário de descalabro total pandêmico, chega num limite de stress.

O que nos interessa é pressionar Bolsonaro até o fim agora, nos utilizando da rota de colisão dele com o Centrão, mas também os militares e o STF. E os ratos pulam do barco porque eles assentiram com algo que já em 2020 nós sabíamos que produziria um gigantesco desastre.

P.S.: A responsabilidade histórica sobre como aqui chegamos é digna dos alemães perante o Nazismo como lembra o James Hermínio. De certa forma, entre apoio, colaboração e oposição demasiada moderada ou desorganizada, temos todos algum grau de responsabilidade sobre isto sim.

P.S. do B.: A divisão entre “ala técnica” e “ala ideológica” se aplicaria da mesma forma cínica e despropositada ao Nazismo. Inclusive, foi a causa de absolvição de muitos nazistas em Nuremberg, vide o ídolo de Paulo Guedes, Hjalmar Schacht.

*Hugo Albuquerque é publisher da Jacobin Brasil, editor da Autonomia Literária, advogado e direitor do Instituto Humanidade, Direitos e Democracia — IHUDD.

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