Execuções em massa e tortura: o que o Batalhão Azov tenta esconder em Mariupol?

Por: Daniel Albuquerque. Publicado em A Coisa Pública Brasileira

Em respeito a verdade histórica e a memória heróica de todos os camaradas que tombaram batalhando contra a tortura e o terrorismo de estado cometidos contra a população de Mariupol que, enquanto brasileiros, faz sangrar nossas próprias cicatrizes e aflora em nós o internacionalismo proletário.

Muitas pessoas acreditam que a Ucrânia seja um país democrático e que é absurdo considerá-la um país autoritário. Mas será mesmo? Tudo o que a mídia hegemônica  fala sobre esse país desde 2014 é que o povo se “insurgiu contra a corrupção”, “combateu o estatismo” e o “apoio e alinhamento a regimes ditatoriais da vizinhança”, “aprovou reformas neoliberais” e vinha melhorando de qualidade de vida e até rumando para finalmente ser aceito na União Europeia. De certa forma, isso te lembra algum acontecimento recente no Brasil?

A Ucrânia, desde 2014, era apresentada-nos como exemplo de uma anti-Rússia. Um modelo para ex-repúblicas soviéticas, que, diferente da Rússia, deveriam aprender a não atrapalhar os interesses dos EUA. Parece até mesmo difícil encontrar alguma crítica ao regime de Kiev que explique o que aconteceu por lá de forma crítica ou oposta… Mas é difícil por um bom motivo: quem critica o governo na Ucrânia é preso, torturado, e não raro “desaparecido”. Alguém se lembra de uma época em que nosso país também era democrático assim?

A coisa pública brasileira, seguindo sua linha editorial de mostrar “a história que a história não conta”, isto é, a história da classe trabalhadora, orgulhosamente apresenta uma extensa investigação jornalística para compreender melhor essa questão. A maior parte das fontes não estão disponíveis em português e a maior parte deste material não foi publicado em nosso país. Acreditamos que o povo tem o direito de ter tais informações para julgar por si próprio os eventos que ocorrem atualmente no leste da Europa.

Não raro a mídia internacional é complacente com os abusos, apesar de farto material documental, parte dele inclusive reconhecido pela Anistia Internacional desde 2016*[1]. Isso ocorre por conta de seus interesses econômicos e sua agenda atrelada aos interesses dos EUA, da União Europeia e da OTAN quanto ao futuro da Ucrânia, que após o golpe de 14 se tornou um pivô na estratégia militar da OTAN em sua expansão às portas da Eurásia. Para compreender melhor, precisamos entender quem é o Sluzhba bezpeky Ukrayiny, o serviço secreto ucraniano, doravante referido neste artigo como SBU.

O que é o Sluzhba bezpeky Ukrayiny (SBU)?

O SBU, criado em setembro de 1991 após a dissolução da União Soviética e independência da Ucrânia, é um sucessor da KGB ucraniana no ramo de inteligência, subordinada ao Presidente da República. Após o golpe de 2014, esta passa por uma reformulação e desenvolve sua perspectiva de segurança nacional com base no combate do inimigo interno. Ou seja, o SBU investigou ativamente os cidadãos ucranianos, fundamentando-se em premissas ideológicas de extrema-direita (supremacia europeia), adotadas pelo Estado-Nacional da Ucrânia após o golpe de 2014 e de uma série de reformas radicais, que alteraram profundamente o espírito da constituição ucraniana. 

Tal processo acabou por criar um aparato formal, jurídico e burocrático, exclusório e característico de um estado policial, dando sustentação e apoio explícito a um aparato ilegal de repressão, tortura, perseguição e assassinato indiscriminados contra opositores políticos e também contra grupos de minorias do país. A SBU mantinha prisões ilegais em todo o país (inclusive em Mariupol), verdadeiros DOI-CODI ucranianos. Tais arbítrios eram justificados pelo fato destes serem “espiões russos”, “agentes russos”, “sabotadores russos”, “pró-Rússia”, “traidores moscovitas”, “agitadores e propagandistas da Rússia”:

“As forças de segurança ucranianas usam tortura contra pessoas suspeitas de simpatizar com o Donbass. O relatório da ONU refere-se a centenas de casos de detenção ilegal e tortura, tanto pela SBU como pelas milícias. Além disso, o relatório refere-se a todo um sistema de prisões secretas nas quais são mantidas pessoas censuráveis ​​ao regime.”

[FONTE, 2019]

Alguém poderia se perguntar: como seria possível ocorrer algo assim e a mídia não denunciar de forma enfática algo tão chocante? E a Europa ocidental, calada? Ao que parece a mesma mídia que no Brasil chamou o golpe de 64 de “revolução” e garantiu-nos que tal regime era uma democracia bipartidária moderna e civilizada (sem povo), apoiou a Lava-Jato e a lawfare, apoiou o golpe de 2016, segue uma linha editorial consistente com sua tradição de capacho da narrativa dos EUA para defender os interesses estratégicos destes, e não poderia não estar nos omitindo uma série de informações importantes.

Além disso, decerto a Europa ocidental pode parecer muito civilizada, uma senhora que é verdadeira déspota esclarecida, ainda hoje, do mundo das ideias. Contudo, não podemos ser ingênuos. Do século XX para cá, a Europa ocidental tem vasta experiência em manter uma postura altiva e retórica moralista, enquanto é conivente com toda categoria de barbaridade desde que isso lhe beneficie. Sobre isso, explicou o jornalista ucraniano Dmitri Kovalevich em entrevista para A coisa pública brasileira[2]: 

“Muitos esquerdistas estão sob controle total da mídia ocidental. Podemos não saber pessoalmente o que está acontecendo na Indonésia ou na Bulgária — por isso tendemos a confiar na mídia de grandes empresas. E os grandes capitalistas investem bilhões em mídia não é em vão — seus investimentos são pagos quando você confia neles e promove sua política. Eles têm um número grande de ferramentas para manipulação. Posso ver agora o influxo em massa de falsificações sobre nosso conflito. Você é bombardeado por milhares deles e todos visam pressionar seus profundos sentimentos humanos. Isso é fácil para manipular a moral das pessoas.”

“Jornalista Dmitri Kovalevich, comunista ucraniano, sobre a situação das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk”, por Cíntia Xavier e Daniel Albuquerque, publicado originalmente na A coisa pública brasileira.

Sobre as violações aos direitos humanos em Mariupol: O que a Rússia, a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk querem encontrar em Mariupol são provas.

Alegada fotografia de uma prisão ilegal do SBU na área do aeroporto de Mariupol reconhecida pela Anistia Internacional — Fonte: https://ria.ru/20190719/1556677870.html

Mariupol é uma cidade localizada no leste da Ucrânia, na região de Donbass. A cidade abriga um importante porto para escoar mercadorias agrícolas, com uma infraestrutura industrial desenvolvida, além de consideráveis reservas minerais. A população de Mariupol, como é comum na região de Donbass, é majoritariamente de língua russa e com fortes ligações culturais com o país e sua história.

Após o golpe sofrido pela Ucrânia em 2014, boa parte da população de Mariupol, como ocorreu em diversas cidades da região de Donbass, se opôs a troca de regime e as suas políticas de discriminação e perseguição as minorias russas e aos opositores do governo golpista, tais quais socialistas, comunistas e toda a sorte de pessoas que realmente incomodam o regime expondo sua hipocrisia e falsidade.

Após o começo da guerra civil ucraniana em 20 de fevereiro de 2014, Mariupol foi retomada pelo governo da Ucrânia que governa desde então a cidade e dá “atenção especial” aos seus cidadãos. No entanto, como o governo ucraniano, com sua política institucionalizada de “desrussificação cultural”, eufemismo para eugenia e intenção de genocídio (aplaudido de pé pelos EUA e pela Europa ocidental, pois tem como uma de suas maiores vítimas, a Rússia e o povo russo) cuidaria de Mariupol? Conforme declarou o jornalista ucraniano Dmitri Kovalevich em entrevista para A coisa pública brasileira explicando como se fundamenta ideologicamente a perseguição na Ucrânia: 

“No caso do nosso conflito civil na Ucrânia podemos ver sim, a questão ideológica. A esmagadora maioria da região altamente industrializada de Donbass preserva principalmente sua mentalidade de classe e pró-soviética. Historicamente sendo trabalhadores de várias origens étnicas, eles resistem à política de estado mono étnico na Ucrânia e suas tentativas de revisionar os resultados da Segunda Guerra Mundial, visto que as autoridades de Kiev promovem oficialmente o culto de fascistas da Segunda Guerra Mundial e conduzem a política de descomunização (proibição de partidos comunistas, símbolos, materiais, postagens na internet, etc.).

O movimento pela independência do Donbass foi desencadeado pelo golpe pró-EUA em 2014. Muitos ucranianos pró-soviéticos ou comunistas/de esquerda se mudaram de Kiev para Donetsk resistindo contra seus antigos vizinhos. Em 2015, foram assinados os acordos de Minsk. Implicaram a reintegração das repúblicas do Donbass de volta à Ucrânia, se isso permitisse que a região possua sua autonomia cultural. Kiev assinou, mas não cumpriu por 7 anos, pois isso seria ruim para impor o nacionalismo étnico.

[…]

O terror da extrema-direita na Ucrânia deve ser interrompido e nossos camaradas devem ter a possibilidade de voltar para casa e trabalhar aqui legalmente. O fascismo e o racismo são uma característica do nosso regime (bem, o presidente Zelensky é apenas um fantoche, um ator contratado atuando como Presidente). Nossa ideologia nacional desde 2014 é baseada em culpar o comunismo e a ideologia de esquerda.”

“Jornalista Dmitri Kovalevich, comunista ucraniano, sobre a situação das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk”, por Cíntia Xavier e Daniel Albuquerque, publicado n’A coisa pública brasileira.

Onde fica Mariupol no mapa da Ucrânia? — Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mariupol#/media/Ficheiro:Mariupol_pos.png

Nesse sentido, desde o ano de 2016 começaram a surgir relatos de que havia algo muito errado ocorrendo na Ucrânia. Pessoas desapareciam, alegavam detenções estranhas, surras e tortura. Pior que isso, o Estado-Nacional não fazia nada para mudar esta triste realidade. A Ucrânia e seu Estado estavam se tornando em algo muito mais autoritário que o habitual, pois organizados em reprimir setores específicos de sua sociedade:

No início do mês, o British Times divulgou declarações do secretário-geral adjunto da ONU para os Direitos Humanos, Ivan Shimonovich, de que o SBU estava detendo massivamente milícias (separatistas de Donbass) e torturando-as sistematicamente. Um relatório sobre o assunto observou “a extensão e a brutalidade do sistema de tortura apoiado pelo Estado [Ucrânia]”, e também aponta para a presença de cinco prisões secretas do governo.”

[FONTE, 2016]

Decerto há semelhanças com o que praticava nossa ditadura militar, que cabe lembrar simulava ser um regime democrático enquanto, na verdade, era um Estado policial, em termos de arbitrariedades e brutalidade, que não se dão apenas por acaso. Provavelmente a inteligência e demais forças de segurança ucranianas, dada a importância de seu papel na política externa dos EUA, devem ter recebido o mesmo “know how” padrão C.I.A./Guantánamo que os torturadores tupiniquins do regime que vigorou a partir de 64 receberam:

Os detidos disseram que foram espancados pelos serviços especiais, usaram choques elétricos, foram ameaçados de estupro, morte e vingança contra suas famílias.”

[FONTE, 2016]

Existe uma “ligeira” diferença que torna o caso da Ucrânia ainda muito pior, a relação do neonazismo e do neofascismo com esse processo, como braço ilegal, porém institucionalizado, do Estado, o que cabe dizer, reflete de forma trágica na história de Mariupol de 2014 em diante:

“Em Mariupol, havia uma prisão secreta do Batalhão Nacional Azov sob o protetorado tácito do Serviço de Segurança da Ucrânia. Isso foi afirmado por jornalistas após os resultados da investigação. De acordo com uma mulher local que passou 10 dias na prisão, este lugar é um “verdadeiro inferno”, onde os cativos foram espancados até a morte e os cadáveres foram jogados em uma vala cheia de cal. O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) supervisionou a prisão secreta do batalhão nacionalista “Azov” (uma organização proibida na Federação Russa) no aeroporto de Mariupol. Isso é relatado pela RIA Novosti, publicando uma investigação jornalística com depoimentos de ex-prisioneiros do calabouço.”

[FONTE, 2019]

Alegada foto de prisão da SBU em Mariupol. Fonte: https://ria.ru/20190717/1556523534.html

Nesse sentido, sustentado por uma série de fontes anexadas ao fim deste artigo, é que Mariupol, por sua localização, sua importância econômica, bem como por sua bagagem cultural e política, se tornou um dos maiores pontos de repressão em toda a Ucrânia. Cabe ressaltar que o “know how” para tal, foi adquirido no processo golpista de 14, e sobretudo, através da primeira batalha de Mariupol, quando forças de extrema-direita brutalizaram a população da cidade e militantes anti-governo. Pela posição estratégica da cidade, não por acaso, lá é localizada uma das, senão a mais importante, sede do batalhão Azov. Relatos de sobreviventes que conseguiram escapar de tal instalação militar localizada no aeroporto de Mariupol, demonstram como parecia existir uma clara divisão de tarefas.

A SBU executava as prisões e encaminhava os cidadãos para tais instalações secretas. Batalhões e milícias de extrema-direita, como o Azov, praticavam os maiores atos de barbaridade e infâmia, não agredindo apenas indivíduos, mas o conceito de humanidade na totalidade. No caso de Mariupol em especial, se tratava justamente de uma das maiores zonas de atuação do batalhão Azov após 2014. Isso é observável em relatos de uma mulher ucraniana, raptada e torturada severamente em uma dessas instalações:

“Outra prisioneira da “biblioteca”, Olga Seletskaya, disse à agência que o “Azov” torturava pessoas se afogando em um barril e um pano molhado – derramando água sobre as narinas e a boca do prisioneiro.

“A água entra nos pulmões, você perde a consciência. Eles estavam interessados ​​em informações sobre armas, onde está o dinheiro”, disse ela.”

[FONTE, 2019]

Além de pessoas ligadas a RPD e RPL, o SBU e as milícias extremistas que o auxiliavam, constrangeram, perseguiram e prenderam de forma arbitrária uma série de cidadãos comuns, sobretudo se fossem de minoria russa ou não tivessem uma visão de mundo marcadamente anti-russos. A exemplo do Brasil, em nossa ditadura militar que ainda não cicatrizou, até mesmo padres foram perseguidos e levados a prisões ilegais.  No caso ucraniano, tais cidadãos eram colocados em salas de tortura chamadas, na forma de deboche pelos neonazistas, de “geladeira”, como demonstra esse agoniante relato abaixo, também de Mariupol:

“Em abril, o padre da UOC-MP Feofan (Kratirov) disse que ele havia sido sequestrado pelo SBU. Perto de Mariupol, em uma prisão secreta, o padre Feofan foi torturado com água, informa a FAN. “Em 2015, as pessoas foram enviadas para o local do batalhão Azov perto do aeroporto de Mariupol, onde foram colocadas em uma “geladeira”. Este é um lugar terrível. “Geladeira” é uma pequena sala com portas bem fechadas, não há praticamente nada para respirar lá”, disse o padre.  Acrescentou que muitos prisioneiros da prisão de Mariupol foram fuzilados e nas celas notou vestígios de sangue velho.

[FONTE, 2019]

Além disso, a tortura psicológica continuava para muito além da “geladeira”. As celas onde tais detentos presos ilegalmente e ao arrepio da lei ficavam amontoados, eram chamadas pelo SBU de “biblioteca” e seus prisioneiros eram chamados “livros”:

“Foi uma tortura sofisticada. Tive a oportunidade de me comunicar com outras vítimas. Como fomos chamados — “livros”. E o lugar do nosso conteúdo é a “biblioteca”. Me contaram sobre a tortura brutal, sobre o que aconteceu lá… Eu vi muitos no porão da SBU, que também passaram pelo aeroporto de Mariupol… As pessoas foram muito espancadas, aleijadas. Ouvi dizer que eles não retornaram após os interrogatórios”, ela testemunha.” 

[FONTE, 2019]


Alegada foto de guarda da prisão ilegal da SBU no aeroporto de Mariupol. Fonte: https://ria.ru/20190717/1556523534.html


Como explicou o jornalista ucraniano Dmitri Kovalevich em entrevista para A coisa pública brasileira, cujo trecho está disponível acima, existe uma sobreposição da questão cultural com a questão ideológica, no sentido de que as populações orientais da Ucrânia, marcadamente da região de Donbass, além de terem fortes ligações com a cultura e com a língua russa, também possuem fortes ligações com a cultura e forma de pensar o mundo referente a antiga União Soviética.

Após a proibição do comunismo e do socialismo, militantes de tais linhas políticas que moravam fora da região de Donbass passaram a se envolver na causa separatista, pois este era o único lugar aonde partidos comunistas e socialistas podiam atuar em toda a Ucrânia. Não é pequena a perseguição a comunistas e socialistas desde 2014 por parte do SBU na Ucrânia. Uma das localidades onde existem relatos sobre isso é justamente em Mariupol: 

“Tatyana Ganzha, moradora de Mariupol, relembra seu tempo na prisão. Ela passou dez dias lá. Ganzha era membro do Partido Comunista da Ucrânia, que agora está proibido neste país. Ela participou de comícios de protesto em Mariupol, no referendo de 11 de maio sobre o futuro da região de Donetsk. Azov a deteve em outubro de 2014. Segundo Tatyana, dentro da prisão há um corredor iluminado com muitas portas de plástico. “Percebi que isso é uma geladeira… Um lugar terrível”, observa Ganzha. Segundo ela, ela passou dez dias no aeroporto, de 30 de outubro a 8 de novembro. 

A mulher afirma que há entalhes na cela onde ela estava. Assim, os presos, para não enlouquecer e pelo menos de alguma forma navegar pelo tempo, marcavam os dias passados ​​na prisão. Também na parede foram pintados elefantes por alguém, simbolizando os dias. Posteriormente, Tatyana soube que eles foram feitos por outra prisioneira, Natalia Myakota. Ganzha descreve o que está acontecendo no aeroporto como “um verdadeiro inferno, um lugar de morte”. Segundo ela, a ponte de seu nariz estava quebrada e sua orelha esquerda não ouvia. A mulher afirma que é difícil lembrar de tudo isso. Mas o “menino do SBU”, que a levou ao banheiro ao longo do corredor malfadado, disse que dois dias antes dela, uma menina, também Tatyana, havia sido espancada até a morte na prisão.

A mulher era constantemente ameaçada com um poço e uma vala em que os corpos dos mortos eram jogados, insinuando que ela logo iria fazer parte de seus números. Eles também ficaram assustados com a tortura psicológica, quando uma pessoa ainda viva é enviada por um tempo para os mortos, e reanimada. Ao ser questionada sobre quantas pessoas foram enterradas nessa cova, Tatyana diz que são muitas, já que pessoas desapareciam sem deixar rastro antes mesmo de ela ser presa. Talvez o número chegue às centenas. Ganzha afirma que “camaradas de Azov” levaram tudo de sua casa – o sistema de aquecimento, janelas, portas. Membros dos “batalhões voluntários” os enviaram para si mesmos como um troféu.”

[FONTE, 2019]

Para quem observa com atenção, está clara a natureza do Terrorismo de Estado aplicado pela Ucrânia, seu governo e Estado-Nacional contra uma parte significativa de sua própria população. Por mais que o SBU chame seus alvos de “russos”, “pró-russos”, isso é falso, tais pessoas são cidadãos ucranianos e o SBU e as milícias de extrema-direita, em seu arbítrio e barbaridade, apenas demonstram o núcleo central de seu critério: o etnocentrismo e a proposta de nacionalismo mono-étnico[3].

Nesse sentido, Mariupol se tornou um alvo principal para o ódio de milícias extremistas, racistas e xenófobas, com auxílio do SBU. A República Popular de Donetsk, que reivindica o território de Mariupol, acusa o governo, a SBU e as milícias de extrema-direita de se vingarem da decisão da população de Mariupol de se separar da Ucrânia, por isso barbarizam com os habitantes da cidade portuária. Tal percepção das coisas é possível de ser constatada no relato de uma das vítimas:

“Um companheiro de cela disse a Bloch que ela foi levada “para levar um tiro” duas vezes, tentando confessar que era uma sabotadora da DPR: “Prometeram me enterrar ali mesmo em uma vala, e ninguém me encontraria se eu não concordasse em trabalhar com eles”, disse Yulia, respirando pesadamente “.

O filho de Flea também ficou impressionado – acabou na cela masculina, onde havia mais oito pessoas. “Alguns deles, segundo o filho, foram severamente espancados. Um podia até ver como as costelas quebradas se destacavam, o outro tinha as pernas quebradas … Que tipo de pessoas eles eram e o que aconteceu com eles em seguida, não sei, só posso adivinhar. Mas uma coisa estava clara, esses caras poderiam realmente desaparecer, como acontece com muitos que são capturados por tais batalhões “voluntários”. 
Deve-se notar que Mariupol foi particularmente reprimida pelos “Setores de Direita” e pelos batalhões nacionais. Afinal, Mariupol foi um dos primeiros a reconhecer a criação da República Popular de Donetsk”, conclui Bloch.” 

[FONTE, 2019]

Embora tais denúncias graves tenham começado a aparecer em 2016, com extensos relatos e testemunhos de vítimas, na época a prisão ilegal de Mariupol já figurava em relatório da Anistia Internacional. Apenas em 2019 isso foi reforçado quando o ex-tenente-coronel da SBU Vasily Prozorov desertou para a Rússia, levando consigo uma série de arquivos e documentos, inclusive as fotos atribuídas a tal instalação militar anexadas a este artigo, que foi possível obter mais informações e começar a compreender melhor essa história:

Em março, em Moscou, no centro de imprensa da agência de notícias Rossiya Segodnya, o ex-tenente-coronel da SBU Vasily Prozorov disse a repórteres sobre uma prisão secreta no aeroporto de Mariupol – a chamada biblioteca. Aqueles que passaram por essas prisões completaram e confirmaram as informações de Prozorov.”

[FONTE, 2019]

Muito embora o ocidente tenha ignorado isso completamente, e nada se saiba sobre tal no Brasil afora algumas matérias publicadas na Sputnik Brasil no ano de 2019, tal cobertura midiática na Rússia foi gigantesca e um verdadeiro escândalo, mobilizando a sociedade russa quanto a questão de Donbass, em uma inclinação em favor das repúblicas separatistas. O que levou a imprensa russa a correr atrás de mais informações, chegando assim a mais ex-funcionários de tais instalações e ao depoimento de mais ex-torturados. Nesse sentido revelou a RIA Novosti em outra matéria no ano de 2019:

“Na terceira parte da investigação, é publicado o testemunho de um ex-funcionário dos serviços especiais ucranianos sobre o trabalho de uma prisão secreta. Ele pediu para não ser identificado por seu nome e cargo por temer por sua vida. Segundo ele, ele estava no trabalho operacional em Mariupol, serviu lá por mais de dois anos e se demitiu em 2017. O ex-oficial da SBU confirmou que as forças de segurança usaram a palavra “biblioteca” não apenas em relação à prisão secreta do aeroporto, mas também quando queriam simplesmente dizer que uma pessoa foi trazida após ser detida. “Biblioteca” não é um lugar específico. Esse era o nome do aeroporto e da base Azov na margem esquerda – este é o distrito Ordzhonikidzevsky de Mariupol, no prédio da escola. Havia também uma casa particular nos arredores de Mariupol, no distrito de Volodarsky (Nikolsky), onde Azov também estava estacionado”, disse ele à RIA Novosti. Segundo ele, a SBU precisava de Azov para “influenciar” os suspeitos – depois de serem torturados na “biblioteca”, os detidos tiveram que ser tratados e eles próprios pediram para serem enviados a um centro de detenção preventiva o mais rápido possível, se só não volta para o aeroporto.”

[FONTE, 2019]

Além disso, tal reportagem é taxativa ao trazer o depoimento de uma vítima que alega ter sido torturada por, e na presença, de parlamentares ucranianos de extrema-direita, com ligações e vínculos com as milícias utilizadas de capatazes pelo Estado Ucraniano:

“A RIA Novosti também encontrou mais dois ex-prisioneiros da prisão secreta. Um deles, Mikhail Shubin, falou em detalhes sobre a tortura a que foi submetido na “biblioteca”. Em particular, eles conectaram uma máquina de solda aos seus genitais, jogaram-no em um poço com os cadáveres dos torturados até a morte.

Os dados do exame médico de Shubin estão à disposição da RIA Novosti. Outro ex-prisioneiro, Kirill Filichkin, disse em entrevista em vídeo à RIA Novosti que foi um dos primeiros a chegar ao aeroporto – em 7 de maio de 2014, quando Azov e as Forças Armadas capturaram a cidade. Segundo ele, os atuais deputados da Rada, Oleg Lyashko e Igor Mosiychuk, o interrogaram pessoalmente, e este último também o torturou. O vídeo dos interrogatórios chegou ao YouTube no outono de 2014 e serviu como uma das provas no caso Filichkin, quando ele foi julgado por seu envolvimento na captura de cinco soldados ucranianos, a quem chamou para se juntar à milícia DPR.

Ao mesmo tempo, Filichkin foi oficialmente detido apenas em 18 de agosto de 2014. Ele passou todos esses meses em prisões secretas. Isso, segundo testemunhas da investigação da RIA Novosti, é uma prática comum para a Ucrânia – ao ser “proibido”, um apoiador da DPR é torturado para torná-lo mais falante, e só então ele é entregue ao SBU e a detenção é formalizada .

Tanto Shubin quanto Filichkin também corroboram vários testemunhos de que houve enterros secretos no aeroporto de Mariupol.

“Conheço cinco túmulos lá. Sob a pista de aviões leves”, disse Shubin à RIA Novosti. Ele foi preso no aeroporto por cerca de duas semanas em agosto-setembro de 2014.”

[FONTE, 2019]

Essas revelações, contudo, não causaram um imenso receio por parte da Ucrânia em ser exposta e condenada. O país já havia se preparado para caso isso ocorresse e continuou a receber apoio veemente de seus aliados internacionais, não sofrendo nenhuma sanção ou reprimenda. Como poderia ter procedido a burguesia ucraniana submissa aos interesses dos EUA, UE e OTAN? Ora, como agem os burgueses em todo o mundo, a exemplo do próprio autoritarismo implantado no Brasil após o golpe de 64 e sua ditadura que nos custou 21 anos:

— Simulando uma democracia teatral por intermédio de apoio da mídia, potências estrangeiras e de mecanismos jurídicos que valem apenas para os pobres, formalizando e legitimando, em simultâneo, a opressão de classe. 

Em outras palavras, a atitude ucraniana diante das denúncias de 2016 não foi a de cessar com a tortura, a violência e o arbítrio. Em 2017 iniciou-se a legalização de  tais prisões e do que nelas acontecem:  

“Além disso, após a publicação do relatório das organizações de direitos humanos, um projeto de lei sobre a legalização de centros de detenção secretos foi submetido à Verkhovna Rada (parlamento local). O texto do documento foi publicado em 29 de maio de 2017 no site do Parlamento ucraniano.

“As mudanças propostas pelo projeto de lei permitirão estabelecer a base legal para o funcionamento das instituições de prisão preventiva realmente existentes do Serviço de Segurança da Ucrânia ”, afirma a nota explicativa do ato normativo. O documento foi elaborado e submetido à Rada pelo Gabinete de Ministros do país.””

[FONTE, 2019]

Ao que parece, os EUA, a Europa ocidental, os aparatos de mídia atrelados a seus interesses econômicos e suas burguesias que, unidas formam o núcleo hegemônico da classe dominante mundial, estão se utilizando das mesmas estratégias que usaram no século XX. Do alto de seu pedestal de “civilizados”, “tutores da moral e costumes” do globo, não apenas fazem vista grossa, mas financiam movimentos extremistas de direita e um estado-policial etnocêntrico, em simultâneo, em que direcionam enormes fluxos de propaganda contra seus inimigos geopolíticos, satanizando-os enquanto se silenciam sobre a real natureza de seu aliado, na esperança que este entre em confronto com um de seus grandes inimigos econômicos, políticos e militares.

No meio disso, porém, não contavam os planos daqueles que dirigem a guerra da burguesia internacional contra os povos do terceiro mundo, com a existência do valente povo de Donbass que da forma que pode, fechando acordos com aliados que eram possíveis (como a Rússia), se insurgiu e se rebelou. Nesse sentido, as declarações de Christelle Néant, militante contra o governo, residente na região e jornalista de guerra do site “Donbass Insider”(provavelmente associado a RPD e LPD), dadas no dia 3 de março deste ano, são revestidas de uma nova compreensão.

Finalmente, após superar o bloqueio midiático e procurar compreender como as pessoas de Donbass e os russos compreendem a guerra que lutam é possível, diferente dos veículos ocidentais e dos institutos do estudo da guerra estrangeiros, entender mais que perfeitamente qual o objetivo das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk e da Rússia em Mariupol e o que estes esperam encontrar: Uma viagem para o inferno que é o próprio aeroporto de Mariupol, e um regresso repleto de provas, evidências e  testemunhas, para ser possível condenar os perpetradores daquela que talvez, seja uma das maiores barbaridades do começo do século XXI:

“Após a conclusão do cerco total de Mariupol (no sul de Donbass), e a captura de assentamentos próximos, como Shirokino, pela DPR (República Popular de Donetsk) pela Milícia Popular e pelo exército russo, a batalha pela libertação da cidade agora pode começar.

Por que estou falando de libertação? Bem, como lembrete, em 11 de maio de 2014, a população de Mariupol, bem como Donetsk, Makeyevka, Gorlovka ou outras localidades do oblast de Donetsk votaram esmagadoramente (89%) para deixar a Ucrânia, após o golpe. Desde 2014, a cidade está sob o controle da Ucrânia, país que os habitantes de Mariupol escolheram deixar. Uma cidade onde batalhões neonazistas e SBU instalaram prisões secretas onde usaram tortura em escala industrial (entre outras coisas no porão do aeroporto), estupro de prisioneiras e execuções extrajudiciais, contra qualquer pessoa que apoiasse a DPR ou o LPR (República Popular de Lugansk), ou era suspeito de apoiá-los. E oito anos depois, a milícia popular da RPD e o exército russo lançaram a batalha para libertar Mariupol. A cidade está agora completamente cercada por ambos os exércitos após a captura de Shirokino e Volnovakha pela milícia popular.”

DONBASS – THE BATTLE FOR MARIUPOL HAS BEGUN!”, de 2022.

Observação: Quando a reação do oprimido é igualado a opressão e tirania daqueles que realmente detém o poder:

*: 
O relatório citado, ainda que em menor escala e intensidade, também aponta casos de detenção ilegal, maus-tratos e tortura nos territórios controlados pelas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk. O que devemos condenar sem nenhuma reserva. Convém sempre recordar, porém, que estes ainda carecem de estrutura e organização legítima de um Estado-Nacional pleno para poder aplicar a lei e fiscalizar a aplicação desta. Acrescenta-se que estas repúblicas nunca existiram de forma autônoma sem estar em sangrenta guerra civil.

Cabe lembrar também, nenhum grupo insurgente ou guerrilheiro, por mais violentos que possa ser, jamais poderá causar tantos danos quanto o terrorismo de Estado, sobretudo quando este último está organizado de forma racional para espionar, prender, torturar, estuprar, desumanizar, e finalmente,  matar,  um grupo ideológico, etnico, linguístico em particular da população. Temos exemplos disso aqui mesmo, no Brasil como os casos de Marighela e a guerrilha do Araguaia.

E, finalmente, é importante observar de forma crítica o fato de que claramente tal relatório feito em parceria por uma organização inglesa e outra norte-americana, tem certo intuito de forçosamente tentar igualar ambos os “lados” ao analisar apenas 9 casos, em um universo maior de casos,  atribuídos aos dois lados do confronto. Como podemos ver na matéria acima, é difícil de sustentar tal equivalência dos lados do conflito dada a profusão de denúncias e comprovações quanto à extensão do aparato de repressão da Ucrânia e sua forma de atuação subdividida entre operação legais e operações ilegais, mesmo sendo um Estado-Nacional legítimo e signatário de uma série de tratados, acordos, e convenções internacionais.



Notas:
1:https://www.amnesty.org/en/documents/eur50/4455/2016/en/#:~:text=In%20some%20cases%2C%20the%20detentions,other%20forms%20of%20ill%2Dtreatment.

2:https://acoisapublicabrasileira.wordpress.com/2022/03/05/entrevista-exclusiva-jornalista-dmitri-kovalevich-comunista-ucraniano-sobre-a-situacao-das-republicas-populares-de-donetsk-e-lugansk/

3:https://acoisapublicabrasileira.wordpress.com/2022/03/07/tudo-que-voce-precisa-saber-para-entender-o-que-acontece-em-mariupol-sobre-a-batalha-de-mariupol-ideologia-filosofia-da-historia-e-a-cronologia-dos-ocorridos-em-mundos-paralelos%ef%bf%bc/

https://acoisapublicabrasileira.wordpress.com/2022/03/05/entrevista-exclusiva-jornalista-dmitri-kovalevich-comunista-ucraniano-sobre-a-situacao-das-republicas-populares-de-donetsk-e-lugansk/Fontes:

“ Ativistas de direitos humanos falaram sobre as prisões secretas do SBU.”, de 2016: https://lenta.ru/news/2016/07/21/sbu_prisons/

“Verdadeiro inferno”: como os nazistas torturam as pessoas na Ucrânia.”, de 2019:https://www.gazeta.ru/army/2019/07/17/12504919.shtml?updated

“Biblioteca” infernal: havia uma prisão secreta da SBU no aeroporto de Mariupol” , de 2019:  https://www.vesti.ru/article/1359577

“Como sair da biblioteca? Ex-prisioneiros de Mariupol contaram sobre os horrores da prisão secreta da SBU”  https://ria.ru/20190717/1556523534.html, 2019

“Ex-oficial da SBU falou sobre a tortura de prisioneiros em uma prisão secreta em Mariupol”, de 2019: https://ria.ru/20190719/1556677870.html

“Sputnik revela evidências de existência de prisão secreta na Ucrânia”, de 2019:

https://br.sputniknews.com/20190717/sputnik-revela-evidencias-de-existencia-de-prisao-secreta-controlada-pela-ucrania-14226016.html

“ATUALIZAÇÃO – Sputnik descobre vítimas da prisão da SBU de Kiev enterradas perto da rampa do aeroporto, questionadas por legisladores”, de 2019:
https://www.urdupoint.com/en/world/update-sputnik-learns-kievs-sbu-jail-victi-672828.html

“Secret Jail in Ukraine’s Mariupol Existed at Least Until 2018 – Security Service Report”:, de 2019:https://sputniknews.com/20190718/secret-jail-ukraine-mariupol-security-service-report-1076282385.html

“DONBASS – THE BATTLE FOR MARIUPOL HAS BEGUN!”, de 2022: https://www.donbass-insider.com/2022/03/03/donbass-the-battle-for-mariupol-has-begun/

 

Artigos Relacionados

O mito da unidade da resistência ucraniana

Durante a cobertura do conflito que ocorre no presente momento no leste europeu, somos levados a acreditar que existe apenas um pensamento na Ucrânia: a defesa de seu governo. Contudo, quando observada de forma crítica, tal narrativa não parece se sustentar. Exatamente nesse sentido, A coisa pública brasileira, no intuito de esclarecer sobre o que ocorre na Ucrânia neste presente momento, publica o presente artigo, do referido autor para que brasileiros possam ter informações relevantes que nos vem sendo negadas, devido ao intenso bloqueio midiático.

A nova política externa da Rússia, a Doutrina Putin

Parece que a Rússia entrou em uma nova era de sua política externa – uma ‘destruição construtiva’, digamos, do modelo anterior de relações com o Ocidente. Partes dessa nova maneira de pensar foram vistas nos últimos 15 anos – começando com o famoso discurso de Vladimir Putin em Munique em 2007 – mas muito está se tornando claro apenas agora. Ao mesmo tempo, os esforços medíocres de integração ao sistema ocidental, mantendo uma atitude obstinadamente defensiva, continuam sendo a tendência geral na política e na retórica da Rússia.

A História do EZLN através de suas declarações (Parte I)

“As seis declarações serão objeto de uma análise comparativa e abrangente. Os seis fazem parte de um todo que não pode ser segmentado, exceto para facilitar a organização de seu estudo, não como objetos de estudo em si e separadamente. Esses documentos contam a história de um movimento político caracterizado por uma plasticidade ideológica e factual altamente sincrética.

Respostas

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *